Thursday, September 04, 2008

mentira

o poeta é um fingidor. finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. aquele que quis ser poeta caminhou por muito tempo em linha reta, sem notar o quão sinuosos eram seus pensamentos. em um breve instante pensava se apenas o calor de sonhos apaixonados é que alimentava sua verve. imaginou quantas musas deveriam ser sacrificadas para o nascimento de uma poesia. quantas estrelas deveriam ser arrancadas do firmamento para tornar rara e preciosa a rima que não cintila mais - terá brilhado alguma vez, perguntou-se. pois foi então que o pensamento sinuoso fez a curva errada e a estrada que ora parecia reta, tornou-se cada vez mais escura. até que, imerso na escuridão, nenhum passo poderia ser reto.

algo perdeu-se no caminho. não há como saber o que, pois o pobre andarilho nunca soube ao certo o que trazia consigo. talvez ele tenha falado algo que enfim ofendera os deuses. ah, ele sabia bem o quão vã era a batalha contra as palavras. precisava ser íntegro, apaixonado, leviano, coerente e contraditório para que as palavras o escolhessem e então algumas linhas de poesia nasceriam. mas algo perdeu-se no caminho, talvez em alguma curva, já que o caminhante optara por seguir uma linha reta.

quanta mentira. tu és um enganador. impossível enumerar todas as vezes em que criastes quiméricas metáforas. pensamentos desconexos de aparente profundidade. ilusões para os leitores incautos, ávidos na busca pelo significado das coisas. que coisas? qualquer coisa. um punhado do que fosse. talvez da dor que nunca sentiram. ou das lágrimas que sempre desejaram verter.

ah, grande farsa poética. algo perdeu-se no caminho, mas agora algo foi encontrado. se nunca soube o que trazia comigo, como poderei então saber o que encontrei? pouco importa. tudo que sei é a linha reta esqueceu de continuar-se.

Monday, July 03, 2006

eis que o suspiro mal cabe no peito
e todo o resto se espreme por um canto nesse mundo. meu bom senhor, que mundo é esse? ententa, não há grandeza nas cousas dentro de quem escreve. os sentidos é que estão encolhendo. hoje, um suspiro parece arrebatar as almas e vísceras de todas minhas vidas. e o silêncio e a obviedade e o tango dispertam profundos pensamentos. tenho vontade de permanecer em sonho. sob o lençol de perfumes oníricos, eu era terceira pessoa. e fui breve. sonhando tive a certeza que esse mundo há muito perdeu o contorno. as palavras começam a criar distância entre si. é possível isso? ora, decerto! diga-me o que o tempo não aniquila. perdão, perdão, jovem poeta. por favor, não escute minhas palavras.

Saturday, June 17, 2006

hoje é um dia daqueles.
cada pulsação parece um soco no peito.
dos fortes.
a respiração fica muito pesada e arrastada. maltrapilha.
sinto profunda necessidade de estar com alguém humano, demasiado humano.
alguém que me conte uma maldade inocentemente. alguém em linha reta.
não quero que o telefone toque enquanto escrevo. perderei a concentração. uma fina linha difícil de domar.
sinto falta de algo que reconheço não me pertencer, pois todos têm o direito de um pouco dessa cousa. do abraço de quem reconhece um par nessa terra desgraçada. daquele olhar perdido e da palavra balbuciada.
agora a respiração está um pouco mais calma. até quando?
recentemente chorei pensando em todos as minhas sinas. por isso meu deus é diferente do deus maísculo. eu não encaro minhas sinas como um culpado, meu deus jamais me julgaria. ele sabe como eu sou. um torto. mas pensei nelas - minhas sinas - e chorei. chorei, pois nem sempre é fácil contorna-las. ah vida sem contorno!
esse texto está um vandalismo.
perdi a linha, mas o telefone não tocou.

Sunday, June 11, 2006

azul profundo

enfim volto a respirar verdadeiramente tranquilo. de súbito, como se uma grande parede de papel fosse delicadamente rasgada por um suspiro, observo toda a ruína. eis que volto a sentir a dor e a delícia, minha consciência da natureza das cousas doudas dessa vida. a face que sorri e chora oculta um mesmo pensamento. não há contradição. e essa beleza diante de meus olhos? ah feroz beleza! tudo continua tão igual. meu sono, portanto, foi breve.

Monday, May 29, 2006

magna solitude

amigo, essa mensagem é para tu e somente tu. conversemos com os olhos já antecipando as lágrimas. ah, elas surgirão, não tenhas dúvidas. isso, respira fundo. nossos poucos anos já parecem suficientes para reconhecermos algumas de nossas sombras. amamos profundamente essa sensação do patético universal. um verso que fale diretamente com o que há de humano em todos nós. a angústia das pequenas coisas ridículas. ora, pergunto, já sentiste teu coração entre garras gélidas, eternamente na iminência de lacerá-lo? e esse súbito peso na respiração? diabos! que cousa é essa que toma forma assim, sem pedir permissão, dentro de nós? poderemos viver agora que descobrimos uma grande verdade sobre essa vida de inverdades? pelos deuses, não sei. dói muito. na véspera de meu nascimento, redescubro um tesouro maldito, uma idéia louca que há muito deveria ter sido destruída - pelo bem de minha sanidade. o desenlace dos toques. uma breve brisa - inferno de aliteração - tentando roubar sua lágrima. e conseguindo. desassossego. quero dirigir meu durango 95 em ultravelocidade. rasgar as árvores, as luzes e as vozes. não há vergonha em mentir, não é mesmo? criamos nossas mentiras quando a verdade tenta nos parar. memento. momento. invento. amigo, estou enlouquecendo, percebe?

Sunday, May 21, 2006

Se alguém, por entre soluços e lágrimas, me perguntasse de que vale essa vida, eu não pensaria mais de uma vez - Buscaria o silêncio mais profundo e maravilhoso para que todos, inclusive eu, conseguissem ouvir a verdade. Não perderia sequer um segundo esclarecendo as nuanças do niilismo e da vontade de potência ou questionando o maligno gênio cartesiano. Não-não. Eu apenas buscaria aquela lágrima envergonhada que sucede o suspiro. Sereno, provavelmente ficaria perdido em meus pensamentos em horas e horas de memórias não-acontecidas, daquelas que não equivalem nem a um minuto quando olhamos para a violência dos ponteiros. Lembrar-me-ia dos flocos de neve. Dizem que somos como eles - bonitos, únicos e especiais. Embora a pena seja mais forte que a espada, não sei se há quem não trema quando escreve. O conceito e a convicção fazem a pena rasgar o papel. Por muito tempo duvidei que éramos flocos de neve, não por achar que todos nós somos iguais e decadentes. Duvidei, pois não gostava da idéia de todos sermos merecedores da consciência de nossa unicidade. Ser único requer mais do que ser tocado por Deus ainda quando alma. Requer muito mais. A verdade, se é que posso dizer isso, é que realmente somos como flocos de neve, porém não nascemos assim.
(...)

Saturday, May 20, 2006

a solidão é para os bons

o que as estrelas escondem? de que serve ser capaz de ouvir e entender o que elas têm a dizer? aqui, sob o infinito manto de morpheus, estou sozinho, novamente. solitário, como sempre. e todas essas estrelas? ora, meu amigo, esqueça-as. não há como continuar.